PROCISSÕES

As procissões são manifestações da piedade cristã baseadas na índole psicossomática do ser humano. Não somos apenas espírito, alimentados por conceitos abstratos; somos também corpo, e precisamos de sinais sensíveis (visíveis e sonoros) para nos exprimir e comunicar. Tais sinais são a palavra oral (que é a expressão mais aprimorada) e os gestos ou atitudes (manifestações mais espontâneas e de mais amplo significado).
Quintiliano (+95), orador romano pagão, dizia que os gestos são "a linguagem comum a todos os seres humanos". No início da civilização cristã, era Santo Ambrósio (+397) quem escrevia: "Os movimentos do corpo vêm a ser como que a voz da alma".
Nos tempos modernos, os psicólogos não hesitaram em subscrever tais afirmações, pois é fato comprovado que, enquanto a linguagem oral se diferencia de povo para povo, a linguagem dos gestos - ou mímica - é comum a todos os povos, sendo mais ou menos idêntica em todos os tempos. Ela constitui a via primitiva e mais característica através da qual o ser humano se exprime; haja vista o desenvolvimento da criança, a qual começa a se manifestar por gestos antes que por palavras.
Devemos mesmo reconhecer que os gestos são um produto especificamente humano, como observa o psicólogo W. Wundt. Este faz notar que os animais para se exprimir, mas não propriamente gestos; ou seja, são sujeitos a reflexos condicionados, mas incapazes de concatenar os movimentos do seu corpo de modo a manifestar idéias e raciocínios elaborados por eles mesmos.

O corpo participa da oração no caminhar

Se a tendência a se exprimir por gestos é tão espontânea na natureza humana, compreendemos então por que ela está intimamente relacionada com a oração, já que esta vem a ser outra expressão característica do ser humano.
Podemos mesmo dizer que não há oração sem gesto correspondente ou sem correlativa atitude do corpo: nem mesmo a prece mais íntima, que parece exigir toda tranquilidade possível, exclui a participação do corpo. Com efeito, também neste tipo de oração, o corpo exerce uma função visível: entra em posição própria, fica imóvel, de joelhos ou sentado.
Os autores chegam a observar o seguinte: os gestos que acompanham a oração são mais ou menos os mesmos em toda parte e em todos os povos, apesar das diferenças de credo professadas pelos orantes. Dentre os gestos comuns a todas a religiões, podemos enunciar: o bater no peito; o cobrir a face; o estender as mãos para o alto, para a frente ou para os lados; o prostar-se por terra; o inclinar-se profundamente; o sentar-se em atitude meditativa etc.
É sobre esse pano de fundo que devemos considerar as procissões: elas vêm a ser uma forma sensível de culto a Deus. Qual o seu significado?
Para responder, comecemos por notar que somente o ser humano, entre todas as criaturas vivas deste mundo, tem o corpo erguido, sendo capaz de se adiantar em passo firme e disciplinado. O Caminhar de estatura erguida constitui verdadeira arte, e arte cheia de nobreza. Sendo particularidade exclusiva da espécie humana, significa propriamente o "ser humano". Na verdade, quantos sentimentos do íntimo da alma se exprimem através do caminhar?!


Caminhando disciplinadamente em procissão religiosa, os fiéis podem exprimir três atitudes:

Alegria e Segurança

O ato de "ficar de pé" simboliza vitória; normalmente, vem a ser a posição de quem venceu a luta. Ora, quando uma assembléia caminha disciplinadamente em procissão, exprime algo de muito positivo: celebra a vitória de Cristo e as grandes graças recebidas em decorrência da vitória sobre o pecado e a morte. Essa procissão equivale ao louvor e agradecimento ao Pai; vem a ser um culto de adoração e glorificação a Deus. Tal é o significado das procissões festivas da Igreja: a do Santíssimo Sacramento, as da Semana Santa, as realizadas por ocasião da festa de um Santo (que é uma obra-prima do Redentor e um estímulo ao louvor do Senhor);
Súplica mais ardente

São procissões que o povo de Deus costuma fazer em momentos difíceis, pedindo ao Pai especial proteção. No passado, isso era feito com certa frequência, a fim de se obter a bênção divina sobre os campos e as colheitas;
Penitência

Além de pedir graças e bênçãos de ordem espiritual e temporal, podemos e devemos suplicar a Deus o perdão dos nossos pecados. Os antigos o faziam, muitas vezes, em procissão, levando publicamente consigo os sinais da sua penitência.

* A procura de Deus feita mediante uma caminhada processional corresponde bem à consciência que temos de sermos viajantes e peregrinos; estamos à procura dos verdadeiros bens, que saciem plenamente as nossas legítimas aspirações à Vida e à Vida Consumada. Sentimos a nostalgia do paraíso ou daquele estado de vida em que não haverá mais lágrima nem dor, mas, ao contrário, Deus será tudo em todos.

As procissões no Antigo Testamento
=> 1Samuel 6, 10-12 -- Quando os filisteus devolveram a Arca do Senhor ao povo de Israel, os israelitas "tomaram duas vacas... e as atrelaram ao carro... Puseram a Arca do Senhor no carro... As vacas tomaram diretamente o caminho de Bet-Sames e mantiveram-no..., sem se desviar para a direita ou para a esquerda. Os príncipes dos felisteus seguiram-nas até os confins de Bet-Sames".
=> 2Samuel 6, 3-5 -- "Colocaram a Arca de Deus sobre um carro novo e a levaram da casa de Abinadab, que está no alto da colina. Oza e Aio, filhos de Abinadab, conduziam o carro. Oza caminhava a esquerda da Arca de Deus, e Aio caminhava diante dela. Davi e toda a casa de Israel dançavam, com todas as suas energias, cantando ao som das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e dos címbalos".

* Vê-se, assim, que o hábito de levar em procissão um objeto sagrado é pré-cristão, documentado pelas Escrituras Sagradas. Os cristãos receberam das mensagens bíblicas essa prática, que, aliás, como já dissemos, corresponde fielmente à índole psicossomática do ser humano.

Fonte: Dom Estevão Bettencourt
Jornal O Testemunho de Fé, de janeiro 2002


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