Matéria na íntegra
Yasmine Saif e Márcia Andrade
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Que ele é campeão pelos principais times cariocas – recentemente pelo Botafogo – com passagem pela Arábia Saudita, Emirados Árabes, África do Sul e Japão, muita gente já sabe. O que muita gente não sabe é que Joel Santana também é paroquiano há quase 10 anos. Ele e sua esposa, Lílian, participam com frequência das missas dominicais. Muito solícito, Joel recebeu-nos em General Severiano e contou um pouco sobre sua relação com a religião e o futebol.
• Você sempre foi católico? Sim, sempre tive hábito de ir à igreja, desde pequeno... fiz Primeira Comunhão na igreja de São Januário, em São Cristóvão. Em todos os lugares em que trabalho, se houver uma igreja perto, eu vou. Na época do Flamengo, saíamos ali da Gávea e íamos à igreja de São Judas Tadeu. Na época do Vasco, também íamos à igreja de São Januário.
• Por que frequenta a Ressurreição? Moro a três minutos da paróquia e vou sempre que não tenho jogo no domingo. Minha tia, de 89 anos, e que inclusive participa de um coral, também frequenta a paróquia. Gosto muito do Pe. José Roberto, que é uma pessoa acolhedora, e gosto do ambiente. Em meu aniversário, fui chamado lá na frente, ao altar, acho isso legal! Costumo ir à missa cedo, para “ganhar” o dia, pois como não gosto de ir à praia tarde, às vezes, saio da missa, passo na padaria, onde gosto de tomar café, e sigo para a praia.
• O sr. atuou como técnico em países de minoria católica. Como foi sua vivência religiosa nesses países? No Japão e na África do Sul eu ia à igreja sem problemas. Na Arábia, era proibido e eu tinha minha “igreja” em casa. Você pode ter um momento seu, em um lugar reservado em casa, como se estivesse na igreja. O importante é o que se passa dentro da sua cabeça. Isso é que é bacana na vida, é o que você vai absorver, Não é errar, inventar uma desculpa e semana que vem fazer de novo. Não é assim não...
• A vida de um técnico é marcada por vitórias e derrotas. Sob a ótica cristã, como é lidar com essas situações opostas? Não misturo as coisas, acho que tudo é fruto do que eu faço e se tiver que ser, vai ser... Eu, normalmente, não peço, só agradeço; peço proteção para errar o menos possível, porque minha vida tem acertos e erros, mas os erros têm muito mais evidência.
• O sr. é um homem de oração? Sou. Eu rezo, geralmente quando estou mais calmo e concentrado. Geralmente eu rezo.
• O sr. tem algum ritual para entrar em campo? Não. É o normal. Acho que é uma coisa particular de cada um, às vezes o “cara” já usa um cordão do lado de fora, “desse tamanho”, para mostrar.
• O Flamengo recorre a São Judas, o Botafogo à Imaculada Conceição... O sr. recorre a algum santo nas competições? Sim, mas está guardado aqui (e aponta para o peito). Mas há santos que vêm por recordação, por exemplo, gosto de Sta. Bárbara devido a minha mãe, e do Menino Jesus de Praga, por causa de minha avó. E tenho meu escapulário (ele nos mostra o cordão escondido sob a camisa do Botafogo).
• Os atletas deveriam dar bons exemplos, mas isso não tem acontecido com alguns jogadores. Ter uma religião ajudaria nesse sentido? No final, faz diferença, sim. A pessoa, tendo fé, vai pensar duas vezes... Mas creio que seja também uma questão de seriedade do país: devia haver leis mais firmes aqui.
• Você tem filhos... Eles vão à igreja? Meu filho tem 28 e minha filha tem 30. E vão pouco à igreja. Eles acham que a vida da pessoa, tudo o que acontece é por um acaso. Não é por um acaso. Sempre tem uma razão de ser...
• Todo mundo gosta de você, até quem não torce para o time em que você atua. Acha que é devido ao seu bom humor? Bem... eu fico zangado também (risos). O que acontece é que jamais mudei minha postura, continuo sendo a mesma pessoa, o que às vezes, é até prejudicial: por exemplo, eu pequei na África do Sul porque não falo um inglês correto – e a maioria dos brasileiros também não fala – mas criaram uma situação, como se fosse o “fim da picada”... E também tem gente que acha que técnico tem que usar terno e eu não uso... Enfim, procuro levar, dentro das minhas relações, alegria, felicidade. E transmitir, dentro dessa felicidade, uma seriedade. Dificilmente você vai ver um problema dentro do meu time. Agora, se tiver, vou ser duro...
• Duro como um “paizão”, que de vez em quando tem que dar um puxão de orelha... Sim, há uma frase que diz: “ser firme, mas sem perder a ternura”. Os jogadores, só em olhar, já começam a saber o que eu quero. É o que eu fazia com os meus filhos; eles sabiam, pelo olhar, quando não gostava de algo. As pessoas devem entender sua liderança, o porquê de você ser líder; é uma coisa que vem naturalmente.
• Uma mensagem. A gente sempre quer paz, uma vida com menos violência. Estamos passando um momento difícil sob todos os aspectos: falta amor, disciplina, sobra violência. A gente deveria reservar algum tempo para a oração, para se ajudar ou tentar ajudar quem está perto.